Mas a tarefa é difícil, nem sempre nossa busca encontra o que queremos, pois nem sempre sabemos o que queremos e podemos irracionalmente querer não achar, para justificar nosso estado interior de vazio, de carências e rejeições.
Mas algo em nós nos impulsiona sempre a buscar um vinculo, a nos ligarmos às pessoas , às coisas e só desistimos disso quando adoecemos.
É através do olhar do outro que nos constituímos, e o Outro que permitiu outrora que nossa identidade se formasse e nosso crescimento e amadurecimento só se dá através dos vínculos , das teias que vamos tecendo nas relações com os outros. Somos fruto de uma paixão, pelo menos a de nossa mãe conosco e se essa paixão não se transformou em uma relação de amor, continuamos vida afora buscando reeditar essa paixão em uma relação de simbiose, de mistura, de enamoramento , que nos faça sentir que somos só um , em um encontro idealizado, sem frustrações, onde o outro está de tal forma fundido a nós, que não precisamos pedir nem buscar , assim como vivemos em nossa primeira relação simbiótica com nossa mãe . Temos a ilusão que esse encontro idealizado preencherá nosso vazio existencial, tornando-nos plenos e completos. Mas esse encontro idealizado não existe pois se o encontramos tal como fantasiamos deixamos de existir como pessoa individual, perdemos nossa identidade.
A necessidade desse outro, duplo de nós mesmos é tão intensa em muitos de nós, que mesmo diante das frustraçoes inevitáveis, da constatação do desencontro, do vazio, da falta fundamental , tentamos negar as diferenças, os desencontros e fantasiamos que o outro vai mudar, e investimos na mudança do Outro e nos esquecemos de nós mesmos. Algumas pessoas se desesperam diante da ameça desse vinculo dual, querem mantê-lo a qualquer preço por nao suportarem a dor da solidão, solidão que nos constitui como seres de busca , de falta e que necessitam pois de ir sempre ao encontro do outro, em busca, mas uma busca infinda pois nunca preencheremos totalmente nossas demandas , nosso desejo.
As pessoas que tiveram uma historia inicial de uma simbiose mal estabelecida ou nao elaborada terão maior dificuldade em aceitar essa falta, essa incompletude e se tornarão inseguras, cheias de medos, ciúmes, pois os fantasmas da historia pessoal as invadem e buscam, erroneamente, no hoje, preencher uma falta que já ocorreu. Nem todos conseguem fazer essa passagem necessaria da paixao para o amor, pois o amor exige racionalidade, escolha, decisão. O amor é mais tolerante, generoso, cumplice. Aceita as dualidades, as imperfeiçoes, frustraçoes, pois nao precisa da completude e reconhece que tudo é dual na vida, bom e mau, nada é apenas bom.
A pessoa apaixonada continua esperando a mudança do outro, mas ao fazer isso se distancia de si mesmo, de seus desejos. Nós só podemos mudar a nós mesmos. A mudança ocorre de dentro para fora e precisamos investir em nós mesmos e deixar o outro ser ele mesmo. Isso implica o risco da perda, sim, mas da perda de uma fantasia, pois o outro real já está nos mostrando com suas ações que ele não é o que imaginamos e fantasiamos.
Nossas perdas infantis mal elaboradas muitas vezes emergem e fazem com que continuemos a repetir condutas destinadas a perpetuar relações que nao são saudáveis. É hora de parar, de analisar nossas relaçoes com as pessoas, o que estamos repetindo e buscar reescrever uma outra historia, é preciso coragem, mas vale a vida
luisa salomon
