quarta-feira, 30 de março de 2011
quase memoria de uma rua sem memoria Delcio Vieira Salomon
Essa semana fui ao lançamento do livro do Tio Delcio e tive uma grata surpresa,: nao esperava encontrar um livro tão gostoso de ler, que me envolvesse tanto . Queria devorar a leitura, ler de uma so vez sem parar, pois os casos de sua infancia remetiam a um tempo tão sonhado , me devolviam fragmentos de minha propria historia, outros de meus pais, e me vi cheia de curiosidade, nao conseguindo largar o livro .A escrita do Delcio nesse livro é muito solta, espontânea , coloquial, sem deixar de ser elegante, culta , muito bem construída e com um estilo descritivo de alto nível. O texto nos leva para dentro de nós mesmos e nos faz senão reviver e rememorar, invejar as experiencias e vivencias relatadas. Delcio nesse livro começa contando de sua infancia, do menino Delcio na rua diamantina , seu relato subjetivo, sua memoria, a interpretação do rememorado, a interpretação dos fatos que viveu. Nao e um simples relato pois nele Delcio contextualiza, dialoga, dá elementos que ultrapassam um relato de memorias autobiograficas. O Delcio Salomon , adulto entra dentro do texto de sua infancia, comentando, analisando fatos, pessoas e situaçoes . Faz um balanço sobre o que , como ele diz em sua nota introdutoria, " esse passado representou para mim ate hoje".O contéudo dos relatos algumas vezes é cruel, até chocante , como são alguns epsódios de qualquer vida vivida e nao negada, mas é admirável constatar como a condiçao humana pode criar e dar sentido às experiencias mesmo dolorosas. Descreve o ambiente do seminario onde viveu 15 anos, da puberdade à idade adulta, e o relatado mostra muito do rigor, dos preconceitos, da lavagem cerebral, das repressoes e humilhaçoes a que foi submetido, mas nao o faz com revolta, com mágoas, embora nao se furte de assumir suas emoçoes.O mais interessante é que toda essa experiencia de aprisionamento , de alienação, nao conseguiu aprisionar o seu pensamento O pensamento de Delcio continuou livre. Suas idéias, seu pensamento floresceu sempre e acredito que foram essas ideias que o salvaram . O que poderia ter sido uma vivencia de solidaõ sem saida, mostra que o caminho escolhido de pesquisar, estudar, a leitura, a avidez do conhecimento, a busca da verdade, a intensa e rica curiosidade, a vontade de saber neutralizaram o ambiente formal, seco, restritivo, punitivo desse lugar e desenvolveram , ao contario, um forte sentimento de interesse pelo mundo, pela verdade. O não submetimento passivo, a possibilidade de manter-se autonomo e pensar com sua própria cabeça , a disciplina, a capacidade de focar, o espirito metódico, tudo isso levaram o autor para fora daquele mundo , para além da solidão esperada e fizeram dele a pessoa que é: ser humano sensivel, amoroso, solidário, capaz de ver o outro, conectado com o mundo, com elevado sentido etico e de justiça. A vida em grupo , em comunidade como nos seminarios, acredito que propicie maiores oportunidades de consolidação das metas, um maior fervor e também um maior compromisso e responsabilidade, favorece ainda a amizade e o companheirismo, educa ao diálogo espontâneo, sincero e generoso, ensina a arte da colaboração, fomenta o espírito de serviço..
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